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domingo, 10 de abril de 2011

O Pós-Édem

-Aceita um pedaço de cordeiro, Caim?
-Não, obrigado, mãe.
-Só um pouquinho. Vou colocar no seu prato um pedacinho da paleta.
-Tá bom, mas eu prefiro arroz com lentilha.
-Certo...    Respondeu Eva com um sorriso.
-Como foi seu dia, Abel?
-Tudo bem, papai. Encontrei novas pastagens ao Sul. As ovelhas estão engordando.
-Ótimo... E o seu, Caim?
-Não muito bem, pai. O trabalho no campo está muito desgastante, me feri com um espinho. Não sei como entrou debaixo da minha unha. As mudas de macieira que plantei semana passada não pegaram.
-Que pena.
-Eu te disse pra plantá-las mais próximas do rio, mas você não me deu ouvidos.
-Acho que entendo um pouco mais de lavoura, plantar e colher do que você, Abel. Preocupe-se com suas cabras.
-Minhas cabras vão muito bem, obrigado.
-Vocês dois parem com isso já!
Apenas o som dos talheres indicava que estavam jantando.
-Abel, por que está tão calado, parece preocupado.
-Sim, estou.
-Com o que?
-Você sabe, mãe, com o amanhã...
-Já pensou qual será sua oferenda?
-Um dos meus animais, talvez uma ovelha.
-E você, Caim?
-Arroz!
-E o que mais?
-Hum?
-Por que você não oferece algumas tâmaras, milho e batatas.
-Grande idéia, Abel! E porque você não oferece todo o seu rebanho e ficamos sem ter o que comer o resto do verão...
-Eu não vou discutir com você.    Disse Abel enquanto acariciava uma ovelha recém-nascida.
-Por que você está assim, Caim?
-O trabalho no campo é muito pesado. Quando chega o fim do dia, eu mal me agüento de dor nas costas.
-Seu pai irá te ajudar...
-Se você não tivesse comido aquela maldita maça.
-Caim, não fale assim com sua mãe.
-E você, meu pai, por que reproduziu a desgraça de minha mãe?
-Moleque, não se meta em questões que você não entende!    Gritou Adão.
-Acalmem-se, por favor, acalmem-se os dois!
-Posso ajudá-lo nos campos, amanhã.
-Não preciso de sua ajuda, Abel. Cuide da sua vida.
-Que modos são esses, Caim!
-Amanhã farei o meu sacrifício à Deus e vou pedir para voltar ao Édem. Afinal de contas, não tive nada a ver com a desobediência de vocês...
Caim sai correndo de casa, desnorteado.
-Não sei o que eu faço com este menino, Eva.
-Nem eu, Adão, nem eu...

Hugo Marcelo

sábado, 9 de abril de 2011

O destemido

- Certa vez, um homem decidiu que enfrentaria todos os seus medos e subiu até o topo de uma grande torre. Sentou-se sobre a mureta de proteção e lá ficou por algumas horas, até perceber que não estava mais sentido medo de altura. Feliz pelo sucesso de sua primeira experiência, o homem resolveu que seu próximo medo a ser enfrentado seria o escuro. Foi até uma floresta fechada ao fim da tarde e por lá passou a noite, perdera então o medo da escuridão. Ele seguiu em sua jornada e foi enfrentado todos os seus temores um a um, até que chegou ao seu último medo, o medo da morte. Então ele subiu novamente na torre onde perdera o medo de altura, mas desta vez ficou de pé sobre a mureta, olhando para baixo, e fez aquilo que todos os que temem a morte deveriam fazer.
-Ele se matou? – Interrompeu o menino.
-Não. Ele aprendeu a viver.

Marcelo H. Cuenca

O Jardim

-Pois não?
-Boa tarde senhora. Somos da SUCAN, estamos dando combate ao mosquito da Dengue.
-Você quer entrar?
Sim, preciso ver se não existem focos do mosquito no seu quintal.
-Um instante.
Todo dia a mesma rotina. Claro, este não é o pior emprego do mundo, mas, talvez já esteja na hora de tentar outra coisa. Meu tio Francisco abriu uma mecânica e está precisando de um funileiro, poderia ser minha nova profissão.    Seu devaneio é interrompido pelo barulho do portão que se abria.
-Boa tarde.    Uma mulher de voz doce, um jeito um pouco esnobe e de olhar misterioso o convida a entrar.
-Com licença.    Instintivamente começa a examinar os vasos de flores, dispostos ao longo do tronco de uma frondosa romãnzeira.
-Gostou das minhas orquídeas?
-Sim, são lindas.
-Qual delas você prefere? As brancas? As vermelhas?
-Acho que... as brancas.
-Quer ver o quintal?
-Sim, sim... A senhora tem muitas plantas. É importante ter o cuidado para não deixar água parada nos vasos.
-Eu tento.
-É, parece estar tudo em ordem.
Era uma bela casa, um quintal imenso, enfeitado com várias flores, samambaias e até um pequeno chafariz no centro de um lago onde algumas carpas nadavam preguiçosamente, como que agasalhadas sob imensas vitórias régias.
-Não quer ver minhas orquídeas lá de dentro?
-Sim, seria bom.
O interior era igualmente maravilhoso. Na sala, uma imensa T.V. de 52 pol., um lustre com tantas pedrinhas reluzentes, como nunca tinha visto antes. Deveriam ser 100, talvez 200 pedacinhos de cristais. O vento entrava pela janela, refrecando-me e acariciava seus longos cachos dourados. Um imenso sofá em couro, estilo bem rústico com algumas almofadas de camurça, muito confortável. Seu marido deveria ser muito rico. Um fazendeiro? Talvez um político importante.
-Você precisa ir embora, agora!
-Tá.    Apressadamente se vestiu e arrumou suas coisas, já se dirigindo para o portão.
-Está tudo em ordem?
-Sim. Está tudo certo, senhora.    Exclamou com voz empostada, olhar sério, quase duro para despistar qualquer vizinho enxerido.
-Que bom.
-Serão necessárias novas inspeções, a senhora tem muitos vasos de flores.
-Acho que não, é muito arriscado.    Disse em tom baixo, quase sussurrando.
-Então pelo menos me diga seu nome...
-Capitu.

Hugo Marcelo