-Pois não?
-Boa tarde senhora. Somos da SUCAN, estamos dando combate ao mosquito da Dengue.
-Você quer entrar?
Sim, preciso ver se não existem focos do mosquito no seu quintal.
-Um instante.
Todo dia a mesma rotina. Claro, este não é o pior emprego do mundo, mas, talvez já esteja na hora de tentar outra coisa. Meu tio Francisco abriu uma mecânica e está precisando de um funileiro, poderia ser minha nova profissão. ⎯ Seu devaneio é interrompido pelo barulho do portão que se abria.
-Boa tarde. ⎯ Uma mulher de voz doce, um jeito um pouco esnobe e de olhar misterioso o convida a entrar.
-Com licença. ⎯ Instintivamente começa a examinar os vasos de flores, dispostos ao longo do tronco de uma frondosa romãnzeira.
-Gostou das minhas orquídeas?
-Sim, são lindas.
-Qual delas você prefere? As brancas? As vermelhas?
-Acho que... as brancas.
-Quer ver o quintal?
-Sim, sim... A senhora tem muitas plantas. É importante ter o cuidado para não deixar água parada nos vasos.
-Eu tento.
-É, parece estar tudo em ordem.
Era uma bela casa, um quintal imenso, enfeitado com várias flores, samambaias e até um pequeno chafariz no centro de um lago onde algumas carpas nadavam preguiçosamente, como que agasalhadas sob imensas vitórias régias.
-Não quer ver minhas orquídeas lá de dentro?
-Sim, seria bom.
O interior era igualmente maravilhoso. Na sala, uma imensa T.V. de 52 pol., um lustre com tantas pedrinhas reluzentes, como nunca tinha visto antes. Deveriam ser 100, talvez 200 pedacinhos de cristais. O vento entrava pela janela, refrecando-me e acariciava seus longos cachos dourados. Um imenso sofá em couro, estilo bem rústico com algumas almofadas de camurça, muito confortável. Seu marido deveria ser muito rico. Um fazendeiro? Talvez um político importante.
-Você precisa ir embora, agora!
-Tá. ⎯ Apressadamente se vestiu e arrumou suas coisas, já se dirigindo para o portão.
-Está tudo em ordem?
-Sim. Está tudo certo, senhora. ⎯ Exclamou com voz empostada, olhar sério, quase duro para despistar qualquer vizinho enxerido.
-Que bom.
-Serão necessárias novas inspeções, a senhora tem muitos vasos de flores.
-Acho que não, é muito arriscado. ⎯ Disse em tom baixo, quase sussurrando.
-Então pelo menos me diga seu nome...
-Capitu.
Hugo Marcelo
5 comentários:
Oi pessoal,
Eu tentei trabalhar a técnica do Tchecov de esconder uma parte do texto.
Acho que não ficou muito bom, mas aí está o que produzi na aula.
Atenciosamente,
Hugo Marcelo
Olá! Aqui é o Marcelo.
Parabéns pela iniciativa do blog Hugo, achei muito boa a idéia!
No meu ponto de vista, usar uma elipse em primeira pessoa é algo delicado. A parte que era para ficar escondida, foi na verdade cortada. É como se no conto "O acontecimento" do Tchekhov, não houvesse a parte em que as crianças estão jantando, enquanto o cachorro come os filhotinhos. Não sei se ficou claro o que eu quis dizer, mas como eu disse, é apenas meu ponto de vista. Fora isso, está muito bom.
Essa Capitu não toma jeito... rs
Oi Marcelo,
Eu acho que vc tem razão, acho que não tá muito claro a elipse, tá mais para uma "edição" mal feita do texto.
A idéia de um narrador é muito boa, mas tava pensando em esticar um pouco mais a descrição do "cenário", a visão do personagem durante a "conjunção carnal", mas não sei...
Obrigado por ter lido meu texto e por seu comentário.
Atenciosamente,
Hugo Marcelo
Então, foi exatamente assim que eu tinha imaginado! A descrição da casa ser levada até o local onde eles tiveram a relação e passar do cenário para alguma parte do corpo dela em especial que chamou a atenção do narrador.
Imagina, eu que agradeço.
Oi Marcelo,
Vou tentar fazer isso e depois re-posto no Blog.
Valeu a dica,
Hugo Marcelo
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