-Aceita um pedaço de cordeiro, Caim?
-Não, obrigado, mãe.
-Só um pouquinho. Vou colocar no seu prato um pedacinho da paleta.
-Tá bom, mas eu prefiro arroz com lentilha.
-Certo... ⎯ Respondeu Eva com um sorriso.
-Como foi seu dia, Abel?
-Tudo bem, papai. Encontrei novas pastagens ao Sul. As ovelhas estão engordando.
-Ótimo... E o seu, Caim?
-Não muito bem, pai. O trabalho no campo está muito desgastante, me feri com um espinho. Não sei como entrou debaixo da minha unha. As mudas de macieira que plantei semana passada não pegaram.
-Que pena.
-Eu te disse pra plantá-las mais próximas do rio, mas você não me deu ouvidos.
-Acho que entendo um pouco mais de lavoura, plantar e colher do que você, Abel. Preocupe-se com suas cabras.
-Minhas cabras vão muito bem, obrigado.
-Vocês dois parem com isso já!
Apenas o som dos talheres indicava que estavam jantando.
-Abel, por que está tão calado, parece preocupado.
-Sim, estou.
-Com o que?
-Você sabe, mãe, com o amanhã...
-Já pensou qual será sua oferenda?
-Um dos meus animais, talvez uma ovelha.
-E você, Caim?
-Arroz!
-E o que mais?
-Hum?
-Por que você não oferece algumas tâmaras, milho e batatas.
-Grande idéia, Abel! E porque você não oferece todo o seu rebanho e ficamos sem ter o que comer o resto do verão...
-Eu não vou discutir com você. ⎯ Disse Abel enquanto acariciava uma ovelha recém-nascida.
-Por que você está assim, Caim?
-O trabalho no campo é muito pesado. Quando chega o fim do dia, eu mal me agüento de dor nas costas.
-Seu pai irá te ajudar...
-Se você não tivesse comido aquela maldita maça.
-Caim, não fale assim com sua mãe.
-E você, meu pai, por que reproduziu a desgraça de minha mãe?
-Moleque, não se meta em questões que você não entende! ⎯ Gritou Adão.
-Acalmem-se, por favor, acalmem-se os dois!
-Posso ajudá-lo nos campos, amanhã.
-Não preciso de sua ajuda, Abel. Cuide da sua vida.
-Que modos são esses, Caim!
-Amanhã farei o meu sacrifício à Deus e vou pedir para voltar ao Édem. Afinal de contas, não tive nada a ver com a desobediência de vocês...
Caim sai correndo de casa, desnorteado.
-Não sei o que eu faço com este menino, Eva.
-Nem eu, Adão, nem eu...
Hugo Marcelo